terça-feira, 27 de outubro de 2015

SEMANA DA REFORMA - LUTERO, A REFORMA E OS ROMANISTAS ULTRAMONTANOS



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Rev. João d’Eça, MD




Introdução

Lutero com o seu trabalho em prol do Evangelho de Jesus Cristo, arrancou das garras do papa metade de toda a Europa de sua época e abalou o mundo conhecido de então, com repercussões até os nossos dias. Ele recebeu um salvo conduto do Imperador Carlos V, no qual estava escrito: “ao mui pio e caro doutor Martinho”. Foi Lutero o homem que recebeu a estima e amizade do príncipe Frederico, o sábio, foi amigo de Spalatin, dos sábios e dos cavaleiros da Alemanha e concentraram-se nele todos os olhares da Europa.

Roma queria queimá-lo; mas todo o poder e explendor de Leão X não conseguiu reduzir em cinzas, o “bêbado Saxonico” como ele lhe chamava. Caetano e Aleander, o sábio e astuto, primeiro orador de seu tempo, mandado à Dieta de Worms para representar o poder papal, não conseguiram seus intentos.

Se Lutero fosse na verdade o que os seus inimigos queriam que ele fosse, se na verdade ele tivesse sido um neófito, então o que diríamos do romanismo e do seu papa?


Resumo biográfico de Lutero

Nasceu em Erfurt na Turíngia, em 10 de novembro de 1483. Depois de ter iniciado os estudos em Erfurt, foi para a universidade onde depois de quatro anos recebeu o grau de Mestre em Ciências e Doutor em Filosofia.

Entrou para o convento dos agostinianos, e conforme diz Dollinger, Staupitz o isentou dos serviços prescritos pela ordem. A Universidade de Erfurt, a mais célebre da Alemanha à época, já havia concedido a ele o grau de Mestre em Ciência e doutor em Filosofia em uma festa com grande pompa.

O trabalho de Lutero no convento era o de vigia, abrir e fechar portas, dar cordas no relógio, varrer a igreja e limpar as celas, e quando tinha acabado o serviço cum sacco per civi tatem, com o saco pela cidade. Esse foi tratamento que o jovem doutro recebeu no convento.

Sobrecarregado com tantos trabalhos não lhe sobrava tempo para os seus estudos e os seus superiores no convento não lhe permitiam que ele deixasse o trabalho para estudar. Quando o viam debruçado sobre uma leitura, murmuravam: “não é preciso estudar mas mendigar pão, trigo, ovos, peixes, carne e dinheiro para se tornar útil ao convento.”[1]

O piedoso e sábio Staupitz, somente depois, a pedido de alguns amigos de Lutero, lhe mitigou a aspereza do tratamento, isentando-o de alguns serviços para dar-lhe tempo de estudar. Assim era o jovem Lutero, acusado injustamente pelo romanismo de orgulhoso.


Lutero ordenado sacerdote

O jovem Lutero depois de dois anos de sofrimento e trabalhos duros no convento foi ordenado sacerdote. Quando Lutero convenceu-se do sacrifício único do filho de Deus, quando entendeu o alcance da morte de Jesus Cristo, quando reconheceu o Cristo como a única vitima pelo pecado e como único sacerdote, e, lembrando se das palavras: “accipe potestatem sacrificandi pro vivis ed mortius”[2] proferidas pelo bispo ao lhe entregar o cálix, exclama: “Se a terra não nos engoliu então a ambos, não foi porque não o merecêssemos, mas sim pela grande paciência e longanimidade do Senhor.”

Lutero experimentou tremendas lutas contra o pecado aos quais não eram compreendidas pelos outros frades do convento que viviam somente para comer e ter regalias eclesiásticas, enquanto que o jovem Lutero estava em busca da verdade e da paz completa em sua consciência. Ele procurava viver uma vida de santidade e pensava que alcançaria no claustro, vestindo o hábito dos agostinianos, cria também expiar os seus pecados pelas obras mortas da carne, com as penitencias que a “santa igreja” lhes impunha. E ainda pior para a sua mente atormentada, ele se ocupava em sacrificar a carne com jejuns, macerações e vigílias. Lutero diz:



Eu me atormentei até a morte afim de alcançar para meu coração perturbado e minha consciência agitada, a paz de Deus; mas, rodeado de trevas espantosas não achei paz em parte nenhuma. Velava, jejuava, maltratava meu corpo, nada conseguia com isso. Então prostrado de tristeza, atormentava-me com a multidão de meus pensamentos. Vê! Gritava comigo mesmo, és ainda invejoso, impaciente, colérico!... Então de nada te serviu o teres entrado nesta sagrada ordem.[3]



Seu amigo Filipe Melanchton testemunha: “Seu corpo se consumia, as forças o abandonavam, chegava às vezes a ficar como morto”.[4]

Em outro momento da vida de Lutero no convento há o seguinte testemunho:



Oh, exclamou o frade saxônico. Se a consolação do Evangelho de Cristo não me teria salvado eu não teria tido dois anos de vida. Nunca a igreja de Roma teve um frade mais devoto, Nunca em convento algum se viu uma aplicação mais sincera e mais infatigável para conseguir felicidade eterna.[5]



Em uma carta que escreveu ao duque Jorge da Saxônia, ele diz: “Se jamais houve frade que entrou no céu pela sua dedicação, eu de certo poderia entrar”.


Lutero e a Bíblia

Até que se converteu lendo as Sagradas Escrituras em Rm. 1.17, Lutero sofreu amarguras, lutou contra si próprio, ficou desesperado pelo pecado, assim como o apóstolo Paulo, o rei Davi e todos os crentes que em comunhão com Deus, sustentam as mais terríveis lutas com o adversário das nossas almas. Quem não passa por lutas assim, sendo cristão, não é um verdadeiro cristão.

O crente verdadeiro quando é despertado pela iluminação do Espírito Santo vê a santidade dele e a sua profunda miséria diante de um Deus que exige pureza de coração, de pensamento, de motivo e, posto face a face com esse Deus Santo, não pode senão desesperar de si mesmo, e gritar como fez o apóstolo Paulo: “Miserável homem que sou quem me livrará do corpo dessa morte?”[6]

A resposta é dada pelo apóstolo dos gentios na sequencia: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”.[7] Esse é o meio para aplacar o desespero da lama de Lutero. Foi a crença na remissão do pecado pelo sangue de Jesus Cristo que tranquilizou sua alma e sarou as feridas abertas pelas invencionices do romanismo.

Quando a alma sedenta aspira alguma coisa mais do que a santidade exterior, essa capa com que se encobre a maldade interna, não fica satisfeita até achar a Fonte cristalina, o Rio da vida onde pode saciar a sua sede, onde acha graça e perdão. Esse perdão e essa graça só pode ser encontrado em Jesus Cristo crucificado, “porque debaixo do céu não existe outro nome dado pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4.12).

A graça e o perdão de Deus só podem ser obtidos mediante a fé (Ef. 2.8). Essa é a verdadeira doutrina paulina, diferente da doutrina romanista que alega a prática de boas obras, igual ao espiritismo kardecista. O apóstolo Paulo diz em Romanos 5.1: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” Desse modo concluímos que Lutero ensinou o que aprendeu de Paulo, ele estava arraigado na doutrina dos apóstolos, foi fiel a essa doutrina, lutou pela verdade e venceu.

Lutero lutou contra todas as aberrações do romanismo com as suas doutrinas perniciosas como a missa, a confissão, as indulgências e contra todos os dogmas humanos, extraídos não das Sagradas Escrituras, mas de mentes humanas pervertidas. Haverá doutrina mais destruidora do que essas? Erasmo de Roterdã respondendo a Frederico, o sábio, a cerca de Lutero, lhe respondeu: “Lutero cometeu dois grandes crimes: atacou a tiara do papa e a barriga dos frades”.

Conclusão

Lutero foi um homem diferenciado em seu tempo, aprouve a Deus escolhê-lo para tão grande e árdua tarefa. Ele incomodou os ultramontanos (romanistas) e o testemunho que se dá dele é: “Cristão austero, alemão de costumes simples e puros, homem de razão desenvolvida”.[8]

Lutero era em tudo diferente de João Tetzel (o vendedor de indulgências), charlatão de feira que embebedava-se nas tavernas e sendo convencido de adultério em Inspruck, foi salvo de ser lançado ao rio cozido em um saco por Frederico da Saxônia. Que diferença entre esse monge de costumes simples e o jovem cardeal eleitor de Moguncia e Magdeburgo cuja sede de dinheiro para sustentar o luxo de sua coorte oriental era insaciável. Que diferença entre esse homem de fé profunda e o famigerado papa Leão X que tratava o cristianismo de fábula. E os outros papas tipo Bento, os Bórgias, plêiade de criminosos ilustres que foram a vergonha da humanidade.

O escritor Petrarca, ao contemplar tanta miséria descreve o vaticano como um covil de ladrões: “La grota dei ladroni”.



[1] MATESIUS. Selnecceri Orat. De Lutero, p. 5
[2] “Tome o poder de sacrificar para os vivos e os mortos”
[3] MELANCHTON. Vita Luteri.
[4] Op. Cit
[5] Cochloens.
[6] Romanos 7.24
[7] Rm. 7.25
[8] CANTÚ, vol. 13. P. 369

domingo, 25 de outubro de 2015

SEMANA DA REFORMA - A REFORMA E OS SEUS EFEITOS



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Rev. João d’Eça, MD





Introdução


A Reforma Protestante do Séc. XVI, depois do estabelecimento do Cristianismo, é o maior e o mais importante evento ocorrido no mundo. A Reforma foi preparada pela descoberta da imprensa pelo alemão João Guttenberg (1396-1468) e pelo renascimento das letras. Foram esses eventos que ajudaram a estabelecer a Reforma e desembaraçar o Cristianismo de adições comprometedoras.

Ao longo dos séculos anteriores a igreja havia se distanciado de um modo singular da sua primitiva simplicidade e pureza. O partido judaico-cristão, foi combatido com muita força pelo apóstolo Paulo, quando este ainda era Saulo de Tarso. Eles haviam conseguido implantar na sociedade cristã ideias e costumes emprestados exclusivamente do velho Testamento.

As pompas do culto, necessárias a um povo grosseiro e rudimentar que ainda se achava no berço da sua existência política, insinuaram-se na igreja, copiando o sacerdócio israelita e, de imitação em imitação, acabaram por ter a hierarquia dos sacerdotes judaicos, desde o sumo pontífice até o mais humilde dos ministros do templo.



O judaísmo assimilado

Os judeus tinham o sacrifício perpétuo: quiseram também ter esse mesmo sacrifício. Tinham uma lâmpada que nunca se apagava: acenderam uma lâmpada nos santuários cristãos. Tinham altares que se inundavam no sangue das vítimas: fizeram-se também altares sob os quais imola-se uma vítima incruenta. Tinham festas solenes, instituíram-se festas análogas em um novo culto.


Esta imitação dos ritos judaicos explica-se facilmente. Moisés e os profetas foram os antepassados do Salvador, os arautos da sua vinda. Deus havia falado pelos antigos profetas, os seus escritos eram a reverberação das palavras divinas. Perpetuar as cerimônias no culto cristão pareceu-lhes naturalmente ser obediência aos mandamentos de Deus. Eles não distinguiam suficientemente, na antiga aliança, o que era permanente do que era a forma transitória das ideias que essa aliança exprimia. Confundiram os ritos cristãos com os ritos judaicos. Por esta razão é que vemos esse fundo de judaísmo no romanismo.


O paganismo assimilado

A igreja da Idade Média emprestou muitas coisas do paganismo. O paganismo transmitiu muitos dos seus usos e tradições ao romanismo. Muitos desses são costumes que se consideram inocentes, que se desculpam no princípio e que mais tarde passa-se a tolerar. Esses costumes depois de tolerados se perpetuam nas massas as ideais e superstições que elas de bom grado tornariam receber. O fim de tudo isso é que o romanismo ficou impregnado da antiga religião pagã e os seus adeptos nem sequer percebem.

Essa assimilação do paganismo pelo romanismo instalou entre o Deus supremo e o homem, colocando um exercito de semi-deuses, de heróis divinizados. Em lugar das deusas pagãs, tem-se a virgem Maria e os santos; em lugar dos deuses domésticos do paganismo surge a figura dos padroeiros e das padroeiras das famílias, das cidades, dos estados e até mesmo da nação. O romanismo criou uma corte de deuses como os deuses do Olimpo. A ideia de uma revelação permanente teve a sua origem na ideia cristã de uma revelação escrita.


Os profetas do povo Hebreu eram usados pelo Espírito Santo e viviam em comunhão com Deus. Eles foram os que redigiram os oráculos do Eterno e esses oráculos tornaram-se o código religioso de Israel.


Diferentemente o paganismo nunca teve um código religioso, não tinham revelação escrita nem um corpo de sacerdotes ou um clero que servia de intermediário entre os deuses e os homens. Os deuses não falavam aos homens, falavam aos sacerdotes. Para consultar os deuses era necessário o ministério dos sacerdotes. Os sacerdotes eram por assim dizer, o primeiro degrau dessa escada de seres divinos que se terminava em Júpiter. Os seus ensinos eram infalíveis e a sua autoridade incontestável. Desobedecer a esses sacerdotes era o mesmo que revoltar-se contra o culto nacional, contra o “deus” que protegia o país ou a nação. Para os pagãos tudo se reduzia à obediência aos sacerdotes.


Os sacerdotes no paganismo era o representante oficial da religião, a sua viva encarnação. Ninguém podia dispensar o seu ministério em nenhuma cerimônia pública, assim o paganismo não passava de uma religião humana, a glorificação do homem na pessoa do sacerdote, ou ainda, a exaltação do homem na deificação dos imperadores. Não é assim mesmo que é no romanismo e no neo-evangelicalismo atual?



O Romanismo e o culto às imagens


O velho paganismo reviveu na Idade Média através do culto aos santos e da autoridade excessiva do clero católico. A religiosidade pagã foi derrotada e o nome dos seus deuses desapareceram para reaparecer no romanismo com novos nomes de santos católicos e com a ideia de que eles, por conhecerem a fraqueza humana, estariam habilitados para interceder pelos humanos.


Com essa maligna ideia implantada no coração dos homens, os homens passaram a ter medo do Deus Santo, inventaram com isso “deuses” mais maleáveis, menos terríveis, sujeitos às paixões humanas, assim como os deuses do paganismo eram.


A Igreja da Idade Média foi uma espécie de desenvolvimento natural do neo-paganismo. O romanismo misturou o judaísmo, o paganismo e o cristianismo e confundiu a cabeça das pessoas, criando um novo paganismo sincrético. Foi exatamente isso que os Reformadores do sec. XVI combateram veementemente. Os Reformadores lutaram para voltar ao cristianismo primitivo e puro, muitos perderam a vida por isso, enquanto que a massa dos cristãos se acomodava, às cegas, a esse neo-paganismo no qual o Deus Santo desaparecia atrás da nuvem dos seus ministros ou colaboradores, no qual Cristo também conservando a coroa da sua dignidade, parecia ter abdicado sua obra de mediador em benefício e glória de sua mãe.


Por séculos e até o tempo da Reforma, o romanismo viveu essa contradição e como já mostrou a História, isso não podia durar ad infinitum. A igreja romanista separou-se grandemente dos ensinos bíblicos e mais cedo ou mais tarde a “bomba” iria explodir e as consciências cristãs iriam se insurgir. Deus levantou o homem Lutero para que ele fosse o interprete dessas consciências.


Lutero encontra a Bíblia

Lutero formou-se na Escola do apóstolo Paulo e protestou contra o cristianismo judaizante que da Idade Média aumentara enormemente com a inserção dos elementos do paganismo. Lutero protestou não em nome da razão ultrajada, mas sim, em nome da verdade falsificada, protestou em nome de sua consciência que suspirava por uma paz vinda diretamente de Deus.


A Bíblia foi a mola propulsora do seu protesto, ou, mais precisamente, a Bíblia o fez entender que o verdadeiro Deus devia conservar-se no primeiro plano, ser, não uma divindade terrível, mas a divindade clemente e misericordiosa de quem podemos nos aproximar, a quem podemos pedir a sua graça através do único mediador que ela mesma estabeleceu, Jesus Cristo, o Redentor Onipotente. Lutero compreendeu isso e desde esse momento, fez-se uma revolução em seu espírito e por meio dele, em toda a igreja.


Aos olhos de Lutero a Igreja não era mais que a dispensadora de perdão aos miseráveis; era a detentora de santos que intermediavam entre a terra e o céu; que Maria era uma “deusa” que cerca os homens com a sua ternura infinita e que, como uma advogada implora o perdão divino de seu Filho; ele cria que o clero era uma casta privilegiada que abre, a seu bel prazer, as portas do céu.


Depois que Lutero descobriu a Bíblia naquele dia na biblioteca de Wittenberg, ele agora só via Deus ofendido propiciado pelo sacrifício de Cristo no Calvário e do qual o homem pode aproximar-se arrependido e colocar toda a sua confiança no Senhor Jesus Cristo. Dai por diante tudo desapareceu da alma de Lutero e ele encontrou-se com o Deus da graça. Ele proclamou com força os benefícios desse encontro, a certeza do perdão, a certeza da vida eterna, de uma vida  nova que jorra dessa fé, uma alegria imensa que brota dessa reconciliação. As palavras de Matinho Lutero ecoam desde aquele tempo por toda a cristandade.



Resultados práticos da Reforma

         O povo trocou a autoridade do papa pela autoridade de Deus, a intercessão dos santos, pela intercessão do Cristo, a mediação de Maria pela mediação do Salvador, Jesus Cristo, a submissão ao clero pela submissão à palavra dos apóstolos. A igreja se viu livre dos elementos estranhos que a tinham invadido, do judaísmo e do paganismo, que haviam alterado a sua doutrina, que havia extinguido a sua simplicidade e pureza primitiva. O povo apoderou-se da fé cristã antes oculta sob um monte de práticas supersticiosas.


A mão dos Reformadores arrancou as ervas daninhas que envolviam o Evangelho primitivo e que davam a esse Evangelho um ar de paganismo e judaísmo. Os Reformadores não inventaram um novo Evangelho, eles somente proclamaram o antigo Evangelho que o romanismo havia obscurecido. Os Reformadores não inventaram um novo Cristo sem divindade e sem redenção, eles trouxeram à luz a grande figura do Salvador, Jesus Cristo.

Ainda há perigos

         O cristianismo judaizante ainda prossegue na sua obra destrutiva apesar de que o verdadeiro Evangelho o tem ferido mortalmente. O falso evangelho não resistirá à difusão dos santos Evangelhos, das cartas paulinas e das Escrituras como um todo, que tem sido conhecidas e difundidas nos quatro cantos da terra.


Infelizmente ainda há perigos outros que ameaçam o cristianismo, dentre eles, o orgulho humano, em que muitas pessoas acham que podem viver sem a graça de Deus e esnobam o Evangelho. Mal sabem esses que toda dádiva vem de Deus.


Conclusão

         O Cristianismo bíblico venceu o cristianismo judaizante da Idade Média. Nós os cristãos Reformados não devemos nunca abandonar a nossa bandeira, que foi a mesma bandeira da igreja primitiva e que será a mesma bandeira que amanhã se hasteará: O Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

SEMANA DA REFORMA - LUTERO, A REFORMA E A ORAÇÃO


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Rev. João d’Eça, MD



Introdução:


Quase todos os crentes aceitam que a oração é fundamental para a saúde da vida cristã. Para se promover uma Reforma, seja na vida pessoal ou na sociedade, o primeiro passo é sempre dobrar os joelhos diante do SENHOR.

O reformador Martinho Lutero (1483-1546) compreendeu essa necessidade desde cedo. Podemos afirmar que ai está o segredo do sucesso da empreitada de Lutero. Ele um homem forte, de vontade firme, cheio de intrepidez, enfrentou todos os perigos numa época em que se posicionar poderia significar a morte certa.

Lutero desde a sua conversão com a descoberta da Bíblia, lançou-se aos braços do Pai Eterno em quem depositou toda a sua confiança. Lutero amava a vida de oração e dependência a Deus.

Iremos nesse artigo tratar do assunto de como Lutero lidava com a vida de oração e destacar as suas impressões acerca da “Oração Dominical” de Jesus Cristo. Num de seus comentários diz ele:



Quando fizeres oração.... faze-o com poucas palavras, porém com muitos pensamentos e afetos saídos do mais profundo de teu interior. Quanto menos falares, melhor rogarás. Poucas palavras e muitos pensamentos constituem o cristão. Muitas palavras e poucos pensamentos constituem o pagão...


Nesse comentário percebemos que se Lutero vivesse hoje em dia, o que ele diria das orações que se fazem hoje nas igrejas? Parecem mais uma sessão de informações a Deus, como se ele não soubesse de nada e o orante precisasse dar a informação ao Todo-Poderoso. Na sociedade contemporânea Lutero seria expulso da maioria das igrejas ao dizer essas palavras, ainda mais num contexto de orações estridentes e gritadas, como se Deus estivesse surdo. O modo de oração de Lutero é como ele expressa:


A oração exterior e do corpo é aquele sussurro dos lábios, aquele palavrório sem fundamento que fere a vista e os ouvidos dos homens; porém a oração em espírito e em verdade, é o desejo íntimo, o movimento, os suspiros, que sabem das profundezas do coração.



Dai pra frente Lutero irá dimensionar os vários tipos de oração feitas por vários tipos de pessoas. Diz ele: “A primeira é a oração dos hipócritas e de todos aqueles que confiam em si mesmos. A segunda é a oração dos filhos de Deus, que vivem no seu temor”.

A oração Dominical

Lutero também comentou sobre a oração dominical de nosso Senhor. Ele começa salientando o nome de Deus que inicia a oração. Diz Lutero:



Entre todos os nomes, não há nenhum que nos disponha melhor para com Deus do que o nome do Pai. Não heveria para nós tanta ventura e consolação em chama-lo Senhor, ou Deus, ou Juíz.... A este nome de Pai as entranhas do Senhor se comovem; porque não há voz mais amorosa e mais terna do que a de um filho a seu pai.

Em seguida Lutero comenta a parte seguinte da oração de nosso Senhor, a que diz que ele “está nos céus”, mencionando como ilustração a situação do filho pródigo. Diz ele:


Aquele que confessa que tem um pai que está nos céus, considera-se por conseguinte como abandonado sobre a terra. Dai vem a sentir em seu coração um desejo tão ardente como o de um filho que vive apartado de seu pai em um país estranho, na miséria e na aflição. É como se dissesse: Ai! Meu pai! Tu estás nos céus, e eu, teu miserável filho, aqui sobre a terra, longe de ti, rodeado de perigos de necessidades e de tristezas.


Continuando Lutero no seu comentário sobre a “Oração Dominical”, ele trata da condição do temperamento humano dizendo:



‘Santificado seja o teu nome’ Aquele que é colérico, ou invejoso, ou maldizente, ou caluniador, desonra o nome de Deus, sob que foi batizado. Fazendo um uso ímpio do vaso que a Deus, sob que foi batizado. Fazendo um uso ímpio do vaso que a Deus é consagrado. Assemelha-se a um sacerdote que se servisse do cálix para dar de beber a uma porca, ou para enchê-lo de esterco...

Analisando a próxima frase da oração dominical “venha o teu reino”, Lutero discorre o seguinte:

Aqueles que acumulam bens, que fazem construir edifícios magníficos que buscam tudo o que o mundo pode dar, e pronunciam com os lábios esta oração, são semelhantes a estes grandes tubos de órgãos que ressoam nas igrejas sem que sintam nem saibam o que fazem...


Lutero ataca o erro das peregrinações com muita veemência. Essas peregrinações eram muito comuns na sua época e muitos diziam ser a vontade de Deus que essas peregrinações fossem feitas. Lutero disse:

“Um vai a Roma, outro a S. Tiago; este faz construir uma capela, aquele funda uma instituição para alcançar o Reino de Deus; porém todos se descuidam do ponto essencial, que é formarem eles mesmos o seu Reino. Por que vais procurar o Reino de Deus além dos mares, quando deves encontra-lo em teu próprio coração?”

Lutero critica as peregrinações que as pessoas desde antes do seu tempo costumavam fazer em busca de uma elevação espiritual. Dentre as peregrinações mais comuns estavam a de Roma e a de São Tiago de Compostela. Na continuação de sua crítica, ele prossegue:


É uma coisa terrível ouvir fazer-se esta petição “seja feita a tua vontade” Onde se vê fazer na igreja esta vontade de Deus?... Um bispo levanta-se contra outro bispo, uma igreja contra outra igreja. Padres, frades e freiras se enfadam, combatem, guerreiam; não se vê senão discórdia em toda parte. E entretanto cada partido exclama que tem uma boa vontade e uma intenção reta; e desta maneira, em honra e glória de Deus fazem todos juntos uma obra do diabo...


Lutero continua a explicar o que ele entende quando se diz as palavras “pão nosso”. Ele vai explicar o que é esse “pão nosso”, como sendo o “pão de Deus”, o Senhor Jesus Cristo. Ele diz:


“O pão nosso de cada dia nos dá hoje?” É porque não rogamos pelo pão comum que os pagãos comem e que Deus dá a todos os homens; mas pelo pão que é nosso em razão de sermos filhos do do Pai Celestial. “E qual é esse pão de Deus? É Jesus Cristo, nosso Senhor: Este é o pão que desce do céu, para que o homem dele coma, e não morra. ‘Eu sou o pão vivo que desceu do céu;.... as palavras que eu vos digo são espírito e vida são (João 6.50-63. Portanto, repare-se bem nisto, todos os sermões e todas as instruções que não nos representam nem nos fazem conhecer a Jesus Cristo, não podem ser o pão quotidiano e o sustento de nossas almas...


Lutero critica a igreja romana, comparando o “pão do céu” com um banquete que alguém preparou, mas não é servido aos convidados que só ficam sentindo o cheiro e nada podem aproveitar. Diz ele:


De que serve tenha sido preparado para nós um tal pão, se não nos dão, e por conseguinte não podemos saboreá-lo?.... É como se houvessem preparado um esplêndido banquete e não aparecesse ninguém para repartir o pão, para levar os pratos, e para dar de beber, de sorte que os convidados devessem alimentar-se com a vista e com o cheiro... É preciso, portanto, pregar a Jesus Cristo só.

Lutero continua, desta feita fazendo o papel de interlocutor imaginário, usando o método muitas vezes usado pelo apóstolo Paulo na carta aos Romanos, ele então pergunta:


Porém perguntas o que se entende por conhecer a Jesus Cristo, e que utilidade se tira disso? Respondo: Aprender a conhecer Jesus Cristo é compreender o que diz o apóstolo: Mas dele sois vós em Jesus Cristo, o qual de Deus nos foi feito sabedoria, e justiça, e santificação e redenção (I Co.1.30). Portanto, compreenderás isto quando reconheceres que toda tua sabedoria é uma loucura desprezível, tua justiça uma iniquidade repreensível, tua santidade uma impureza vergonhosa, tua redenção uma condenação ignominiosa; quando conheceres que diante de Deus e dos homens é verdadeiramente um louco, um pecador, um impuro, um homem condenado, e quando mostrares não somente com palavras mas com tuas obras e do fundo de teu coração, que não resta nenhuma consolação nem salvação senão em Jesus Cristo. Crer não é outra coisa senão comer esse pão do céu.

Era assim que Lutero permanecia fiel à sua resolução de abrir os olhos a um povo cego, a quem os sacerdotes levavam aonde queriam seus escritos, propagados em pouco tempo por toda a Alemanha, produziam ali uma nova luz, e semeavam abundantemente a semente da verdade um uma terra bem preparada.


Conclusão

Quero concluir com uma oração proferida por Lutero:


Querido Pai, dá-nos graça de modo que tenhamos controle sobre a concupiscência da carne. Ajuda-nos a resistir a seu desejo de comer, beber e dormir além do necessário, de ficar à toa, de sermos preguiçosos. Ajuda-nos através do jejum, da moderação no comer, no vestir, no dormir e no trabalhar, através da vigilância e do labor, a sujeitar a carne e a voltarmos às boas obras.

Ajuda-nos a levar todas as nossas inclinações más e lascivas, bem como todos os seus desejos e estímulos até a cruz de Cristo e sacrificá-los, de modo a não dar crédito a nenhum de seus encantamentos nem tampouco segui-los. Ajuda-nos no momento em que virmos uma pessoa, uma criatura ou qualquer outra imagem bela, de modo que isso não se torne uma tentação, mas uma ocasião para demonstrar um amor casto e para louvar-te pelas tuas criaturas. Ao ouvir doces sons e sentirmos coisas que nos agradam os sentidos, ajuda-nos a buscar não a lascívia, mas o teu louvor e honra.

Preserva-nos do pecado da avareza e do desejo pelas riquezas deste mundo. Guarda-nos de modo a não buscarmos a honra e o poder mundanos e nem sequer consentirmos o desejo por eles. Protege-nos, de modo que as mentiras, a aparência e as falsas promessas deste mundo não nos atraiam para seus caminhos.

Guarda-nos para que as fraquezas e adversidades do mundo não nos levem à impaciência, à vingança, à ira ou a quaisquer outros pecados. Ajuda-nos a renunciar às mentiras e à falsidade do mundo, a suas promessas e à sua infidelidade, bem como a todo o seu mal (como já prometemos fazer no batismo), apegando-nos firmemente a esta renúncia e, assim, crescer dia a dia.

Livra-nos das sugestões do diabo, que não venhamos a dar espaço ao orgulho, que não nos tornemos egoístas e que não desprezemos os outros em nome da riqueza, da posição, do poder, do conhecimento, da beleza ou de qualquer outro dom dos céus. Guarda-nos de cair no ódio ou na inveja por qualquer razão. Preserva-nos de modo que não venhamos a ceder ao desespero, a grande tentação de nossa fé, seja agora ou na hora de nossa morte.

Que tenha o Teu amparo, Pai Celestial, todo aquele que se esforça e trabalha contra todas estas grandes e diversas tentações. Fortalece aqueles que ainda esperam; levanta aqueles que caíram e foram derrotados; e a todos nós dá a Tua graça, para que nesta vida incerta e miserável, incessantemente cercada de inúmeros perigos, possamos lutar com constância e com uma fé firme e destemida e, no final, ganhar a coroa que permanece para sempre.”


Sem coragem, sem inteligência, sem dependência de Deus, sem apoio dos companheiros e principalmente sem uma vida consagrada em oração, a Reforma teria muita dificuldade de ser implantada na Alemanha.



Referências Bibliográficas


ALLEN, William E. História dos avivamentos religiosos. Trad. Helcias Câmara. Rio: Casa Publicadora Batista, 1958. pp 16-17.


ALTMAN, Walter, Lutero e Libertação, São Leopoldo (RS): Sinodal & São Paulo: Ática, 1994.


CALVINO, João, As Institutas da Religião Cristã – Livro III, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985.


FERREIRA, Wilson Castro, Calvino: Vida, Influência e Teologia, Campinas (SP): Luz para o Caminho, 1995.


GONZALES, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo- A Era dos Reformadores (vol. 5), São Paulo: Vida Nova,1995


HENDRIX, Scott H. The Controversial Luther, Word & World 3/4 (1983), Luther Seminary, St. Paul, MN, p. 393. Veja, Hillerbrand, Hans. The legacy of Martin Luther, in Hillerbrand, Hans & McKim, Donald K. (eds.) The Cambridge Companion to Luther. Cambridge University Press, 2003.


LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas (vol. 7). São Leopoldo (RS): Sinodal & Porto Alegre (RS): Concordia, 2000. 


LUTERO, Martinho. Como Orar. Editora Monesrgismo. 


Luther’s Works, Pelikan, Vol. XX, pág.: 2230.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SEMANA DA REFORMA - LUTERO E A BÍBLIA - 31/10/2015 - 498 anos de Reforma Protestante


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Rev. João d’Eça



Deus renovará o mundo! – Estas foram as palavras proféticas de Lefevre d’Etaple. Foram essas as palavras que se cumpriram na colossal revolução conhecida na História pelo nome de Reforma Protestante do Século XVI.

O mundo de então, vivia em trevas agudas, a Idade Média ficou conhecida na como Idade das Trevas, porque o pensamento majoritário do papado contaminou a cultura e a religião, a ponto de a sociedade medieval viver em completo desconhecimento sobre tudo. A cristandade reclamava uma reforma e vinham de todos os lados sinais de precursores de uma revolução religiosa que trouxesse a Escritura Sagrada, a Bíblia, para a vida do povo, para orientar os caminhos da sociedade, da educação e da religiosidade.



Tomás de Aquino (1225-1274) foi o grande incentivador da suserania[1] e que o papa Alexandre VI (1431-1503), nascido Rodrigo Borgia, foi o 214º papa, para fazer a partilha do mundo, serviu-se dela. Já o papa Júlio II (1503-1513), desligava do juramento de fidelidade os súditos do rei da França, Luis XII convocava contra o papa o Concilio de Pisa, a Pragmática de Bouges despertava o entusiasmo pelos parlamentos e os doutores da Sorbonne usavam de uma linguagem cuja audácia admirável.


Essa tentativa de reforma foi imperfeita. Ela tinha por corifeus Erasmo e Carlos V. O século XVI viu erguer-se imponente a Reforma evangélica representada por Martin Lutero, mais ou menos radical, cujo principal objetivo foi proclamar a supremacia da Bíblia em matéria de fé e prática. Antes da Reforma Protestante a Bíblia era um livro totalmente desconhecido.



Com a redescoberta da Bíblia no período da Reforma, o mundo mudou, as coisas mudaram, a sociedade enxergou um novo norte em todas as suas áreas. A Bíblia veio transformar o mundo. O impacto que a Bíblia causou foi tão grande, a ponto do arcebispo de Mainz, Alberto de Brandeburgo (1490-1545), dizer: “Não sei bem que livro é esse; somente sei que o que nele se lê, é contra nós.” Carlstadt, professor em Wittenberg, começou a ler a Bíblia só depois de oito anos de doutorado.

Um testemunho de Martin Lutero sobre a Bíblia, é muito interessante, ele diz:

Quando eu estava com 20 anos de idade, eu ainda não havia visto uma Bíblia. Eu achava que não existiam evangelhos ou epístolas exceto as que estavam escritas nas liturgias dominicais. Finalmente, encontrei uma Bíblia na biblioteca e levei-a comigo para o mosteiro. Eu comecei a ler, reler e ler tudo novamente, para grande surpresa do Dr. Staupitz.


A Reforma protestante é o anjo do apocalipse voando pelos céus com o evangelho aberto, segundo alguns comentaristas. A Escritura Sagrada forma o centro da Reforma, Lutero sentiu isso e Deus o guiou na redescoberta da Bíblia.

Em um outro comentário, Lutero fala sobre a Bíblia, diz ele:


A Palavra de Deus, passando pelos pais apostólicos me faz o efeito de um pouco de leite que se fizesse coar por um saco de carvão. As palavras dos Pais, dos homens, dos anjos, dos demônios, oponho, não o uso antigo, nem a multidão, mas a Palavra única da eterna majestade, o Evangelho que eles mesmos são forçados a reconhecer. No Evangelho me conservo, me assento e descanso; ele é a minha glória e o meu triunfo dele eu insulto os papas, os tomistas, os sofistas e todas as portas do inferno. Pouco me importo com as palavras dos homens, seja qual for a sua santidade; pouco me importo com a tradição, com os costumes enganadores. A Palavra de Deus é sobre tudo. Se a majestade é por mim, que me importa o resto, mesmo que mil Agostinhos, mil Ciprianos, mil igrejas de Henrique VIII, se levantem contra mim! Deus não pode errar nem enganar: Agostinho e Cipriano, como todos os escolhidos podem errar e tem errado.

Lutero viveu para pregar a Bíblia, o tempo todo depois que descobriu. Ele não abandonou a Sagrada Escritura até os seus últimos dias. Ele a pregava constantemente, e disse sobre isso:

A Palavra de Deus é o mais precioso de todos os bens, excede a todos os tesouros do mundo. Quem está privado dela, sofreu uma verdadeira fome espiritual. Queira Deus que semelhante desgraça nunca nos aconteça. Seria melhor que fossemos degolados pelos turcos.

Era na Bíblia que Lutero se fortalecia. Num outro comentário seu ele expressa o que sentia quando lia a Sagrada Escritura:

Quando o diabo me acha ocioso e que não penso na Palavra de Deus, turba-me a consciência, sugerindo-me que eu não estou pregando a verdade, que eu estou perturbando o governo, que, com aminha doutrina, tenho dado muitos escândalos e promovido grandes rebeliões. Mas, quando tomo a Palavra de Deus, resisto ao diabo e lhe digo: ‘Eu sei pela Palavra de Deus e estou certo de que essa doutrina não é minha, mas sim do Filho de Deus.

Em Augsburgo Lutero proclamou em alto e bom som: “A Bíblia, A Bíblia, A Bíblia!” Foram essas as suas palavras em Augsburgo, Leipzig e em Worms ele disse: “Refutai-me pela Escritura! Persuadam-me pela Escritura! Eu obedeço somente à Escritura”.

Lutero viveu o resto da sua vida pela Escritura Sagrada, desde que a descobriu naquele dia na biblioteca. O seu trabalho semanal e predileto era a tradução da Bíblia que marca o momento na história da Reforma. Ele traduziu o Novo Testamento em Wartburgo. Mais tarde dedicou quinze anos de sua vida à tradução do Antigo Testamento. Nesse trabalho teve alguns de seus amigos como auxiliares. Cada palavra do texto era pesada e debatida com os seus companheiros: Melanchton, Bugenhazen, Jonas, Criciger, Auragalus. Eles davam conselhos e Lutero decidia. Nessa tradução era gasta às vezes, três semanas na versão de uma frase, tal era o cuidado e as minuncias do trabalho de tradução.

A intenção de Lutero era que todos, ao ler, pudessem compreender o texto Sagrado, e por isso, pedia expressões à sua esposa e seus filhos, aos operários que encontrava no caminho. Depois disso vinham os seus amigos para fazer o trabalho de revisão: Um trazia a sua Bíblia em latim, outro o texto em Hebraico, outro a versão  LXX e outro uma versão caldaica.

Dessa forma o trabalho foi concluído em Wartburgo. Em 1534 a Alemanha tomou posse da Bíblia completa traduzida em uma linguagem viva, simples e popular.

A propaganda que Lutero fez da sua tradução da Bíblia obteve grandes resultados. Um autor hostil à Reforma Protestante, chamado Cochleus, diz o seguinte:


“Mesmo os sapateiros, as mulheres e todos que sabiam ler o alemão, liam e reliam com grande avidez o Novo Testamento, como sendo a única fonte de toda a verdade e acabavam por decorar o seu conteúdo. Eles levavam consigo o Novo Testamento. Lutero havia persuadido a seus discípulos que não dessem crédito a cousa alguma que não fosse lida da Escritura!

A Bíblia traduzida por Martinho Lutero tornou-se um livro popular. Era encontrado em toda parte. As mulheres a liam em passeio. Era um livro estudado e discutido. A tradução da Escritura para a língua alemã feita por Lutero causou um impacto de proporções gigantescas em toda a Europa dos 1500.






[1] Suserania ou suzerania era o termo empregado na Idade Média para distinguir um nobre que doava algum bem (normalmente terras, mas podia ser a concessão de impostos sobre uma ponte, o uso de equipamentos agrícolas, o uso de uma fonte d'água, etc) a outro nobre. Nessa relação, suserano é quem doa o bem e quem o recebe é denominado vassalo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O VALOR DE UM CARÁTER NOBRE




Introdução:



         As nossas autoridades, sejam de que poder for, Executivo, Legislativo ou Judiciário, não nos tem dado exemplos de caráter e de dignidade, pelo contrário, os exemplos que vemos tem sido exemplos de indignidade e de vergonha ao nosso povo.



Os últimos acontecimentos ocorridos no nosso país nos últimos 20 anos tem sido os piores possíveis. Em todas as esferas da sociedade a corrupção campeia e domina as autoridades não tem nenhuma “autoridade”, ninguém as respeita e todos caminham fazendo “o que lhes dá na telha”.



Corrupção à brasileira



Os desvios da corrupção mostrados na operação Lava-Jato vem nos dar a certeza que o nosso pais perdeu o rumo. A corrupção endêmica que atravessa o nosso país em toda roda dos ventos, é vergonhosa e não aconteceria em nenhum país da América do Norte, Europa ou Ásia, sem que houvesse consequências sérias para os corruptos, fossem eles quem fossem.



Nos Estados Unidos não se admitiria um roubo de proporções tão grandes, na Europa não se admitiria nem 10% do que foi roubado no Brasil no “Mensalão” e no “Petrolão”. Se fizessem isso lá, os protagonistas seriam punidos com pena de morte ou prisão perpétua.



Quando ouvimos falar de corrupção nesses países citados, o montante roubado não chega a 5% do que se roubou no Brasil. Os nossos políticos e autoridades que os protegem, não tem caráter.



         Um caráter nobre é a perfeição e a glória da vida. É o mais precioso dos bens, o único que, no conceito geral, supre a sucesso e a riqueza, o único que enobrece todo e qualquer posto aos olhos da sociedade. O caráter nobre exerce maior poder que a riqueza, e, sem rivalizar com a fama, confere-nos as mesmas honras.



Da honra resulta uma influência viva e sensível, e com todo o direito; porquanto é a influência da retidão, da constância, da honra provada, as qualidades que, talvez mais do que nenhuma outra, conciliam a estima e a confiança dos homens.



Caráter nobre



O caráter nobre é a própria natureza do homem no que ela tem de melhor; é a ordem moral constituída em homem. Com efeito, os homens de grande caráter não são somente a consciência da sociedade; são também, pelo menos em todo o Estado sabiamente regido, a sua força motriz por excelência. Quando tudo isso é considerado, torna-se nas qualidades morais que governam o mundo, até mesmo na guerra, segundo dizia Napoleão.



Força, indústria, civilização, tudo para as nações depende da energia do caráter individual. Esta força de caráter é a verdadeira base da segurança pública; as leis e as instituições são simplesmente o reflexo e a consagração dela. Na reta balança da natureza, indivíduos, nações, raças, recebem todos, exatamente a parte que merecem; e assim como é impossível não seguir-se o efeito à causa, assim também as qualidades do caráter popular haverão de necessariamente manifestar-se em atos correspondentes à natureza de sua origem.



Por mais simples que tenha sido a educação de alguém, por mais medíocres que sejam os seus talentos, todo homem, seja ele pobre ou rico, se for grande pelo caráter, exercerá sempre, em qualquer lugar que esteja, na oficina, na loja, na praça, no senado, uma influência preponderante.



George Canning[1] escreveu em 1801:



Só quero subir ao poder pela força do caráter; não buscarei nenhum outro meio de me elevar; e é-me grato nutrir a esperança de que este meio, se não for o mais pronto, será pelo menos o mais seguro.



Todos nós nos sentimos facilmente dispostos a admirar ao homem inteligente; mas a nossa confiança, nós só a daremos ao homem que provar que possui outras qualidades além da inteligência.



Exemplos de caráter ilibado



Benjamim Franklin atribuía todos os seus triunfos na vida pública, não à sua eloquência ou aos seus talentos, que bem longe estavam de ser esplendidos, mas à sua notória integridade de seu caráter:



Eis o que me dava, dizia ele, tanta influência sobre os meus concidadãos. Eu era fraco orador, hesitava na escolha das palavras, apenas falava corretamente, nunca me elevava à eloquência; e, não obstante, fazia geralmente prevalecer a minha opinião.



Quer seja entre ricos ou entre pobres, quer seja entre pessoas influentes ou entre pessoas simples, é somente pela inteireza de caráter que o homem inspira confiança. O imperador Alexandre I da Rússia era um homem de caráter, que houve quem dissesse que o seu caráter valia uma constituição.



Durante a guerra Montaigne foi o único entre os fidalgos franceses que não se viu obrigado a trancar-se no seu castelo. E dizia-se a este respeito que a veneração infundida pelo seu caráter pessoal guardava-o melhor que um regimento de cavalaria.



[1]George Canning, FRS, (11 de abril de 1770 - 08 de agosto de 1827) foi um estadista britânico e político que serviu em vários cargos ministeriais seniores sob vários primeiros-ministros, antes de servir como primeiro-ministro durante os quatro meses finais de sua vida.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

COMO OS CRENTES DEVEM TRATAR OS SEUS PASTORES


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Rev. João d'Eça, MD



Introdução:

         Em muitas igrejas os pastores são honrados e respeitados como ministros do evangelho e assim como ensina as Sagradas Escrituras eles são dignificados e “merecedores de dobrados honorários”. Porém, e infelizmente, muitos outros ministros são desprezados, não honrados e maltratados em muitas igrejas, a ponto de terem de se virar sozinhos, não tem a “destra da comunhão” dos presbíteros e diáconos, e para desenvolver o seu ministério precisam trabalhar secularmente, atrapalhando assim o desenvolvimento do seu ministério.



         Não podemos fechar os olhos para a realidade de que muitos entram no ministério sem ter o chamado de Deus, entram na vida ministerial por causa de frustrações profissionais ou acadêmicas, e enxergam no ministério pastoral uma válvula de escape para suas frustrações e acabam trazendo problemas para o testemunho da igreja, esses são os mercenários.



         Abaixo vamos considerar o que diz a Escritura Sagrada sobre como devem ser tratados os ministros do evangelho.



1 – Os pastores devem ser reconhecidos e honrados pelos crentes – (I Tess. 5.12, 13).



Agora, vos rogamos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam; e que tenhais com amor em máxima consideração, por causa do trabalho que realizam. Vivei em paz uns com os outros.



A sua obra é tão gloriosa que os anjos anelaram realiza-la (I Pd. 1.12). “A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as cousas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho, cousas essas que anjos anelam perscrutar.”



Os ministros devem desenvolver o seu ministério com amor. Se os crentes reconhecem que a mensagem é de amor e amam, é claro que devem considerar em alta conta, e, amar cordialmente aqueles que Deus tem enviado com essa mensagem.



2 – Os crentes devem obedecê-los e animá-los Hb. 13.17: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que faça isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.”



3 – Os crentes devem providenciar a sua manutenção financeira:



- I Co. 9.13,14: “Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tiram o seu sustento? Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho.”



- Gl. 6.6: “Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de todas as cousas boas aquele que o instrui.”



- I Tm. 5.17, 18: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário.”



Considerando que o mundo despreza aos crentes e em especial aos ministros do evangelho de Cristo e a sua mensagem, é justo que o povo de Deus os trate com consideração e gratidão, tendo-os por dignos de uma dupla recompensa da que dão aos outros homens.



Deus faz a sua parte, isso é fato!



Mas e os crentes, fazem a sua?

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

CONSELHO AOS JOVENS


“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade,
antes que venham os maus dias, e cheguem os anos
dos quais dirás: Não tenho neles prazer.”
 (Ec. 12.1)
 

 
 
Introdução:

          Decidi escrever aos jovens, especialmente aos jovens crentes, que em meio a um mundo secularizado, materialista e perdido, lutam contra as tentações da idade em busca de afirmação e reconhecimento, muitas vezes sem pensar que esse caminho fatalmente acabará em dor, sofrimento e morte.

O mal procedimento dos jovens crentes tem acusado os seus pais de negligência na sua criação e na sua orientação espiritual. É claro que os pais não induzem os seus filhos aos malfeitos e nem se sentem felizes quando sabem do comportamento inadequado dos seus filhos, porém, muitos pais são a causa dos maus procedimentos desses jovens.

Os jovens, entretanto, estão em busca de um viver desregrado e por causa dos seus próprios pecados eles deixam os seus pais livres de culpa pelas suas iniquidades.

Meu testemunho

A minha criação foi de sujeição e obediência aos meus pais. Foram as orientações do meu pai e da minha mãe que me mantiveram longe das más companhias e dos vícios. Quando estava longe de casa e por qualquer motivo eu brigava ou entrava em uma briga, fosse qual fosse o resultado, ao chegar em casa eu era corrigido por meus pais.

Percebi logo cedo, na adolescência e na juventude, que os companheiros da minha mesma idade não me convidavam para praticar nenhum benefício, fosse para nós mesmos ou para os outros, a tônica era somente para a prática do mal. Quando olho pra trás, me arrepia a constatação de que eu poderia não mais estar aqui contando essa história, por causa das enrascadas que os meus amigos me levaram a praticar.

Meus pais não me ensinaram o Evangelho, pois eles não sabiam do que se tratava, mas ainda assim eles temiam a Deus e me passaram esse temor, me dizendo para não esquecer disso.

A benção dos meus pais

Agradeço aos meus pais, que mesmo pobres, me deram o necessário para não padecer fome e frio. Eles não tinham muito, mas sabiam economizar e dividir com os filhos, afim de que não faltasse a subsistência a nós.

Passamos por privações e dissabores, e isso me ajudou a valorizar a vida, o trabalho, os estudos e o relacionamento com Deus, o qual conheci ainda bem jovem, aos 12 para 13 anos de idade. Por isso reforço o que diz a Escritura Sagrada: “Lembra-te do teu criador nos dias da tua mocidade...” (Ec. 12.1).

Meu conselho aos jovens

Eu escrevo a vocês jovens, que nem sequer me conhecem, para como a um amigo, lhes dizer que vocês precisam dar ouvidos à palavra do rei Salomão, descritas acima no texto bíblico que serve de base para esse texto: Lembra-te de Deus, não o esqueças, isso será luz para o teu caminho. Sinceramente eu desejo a todos vocês a paz e o descanso das vossas almas.

Ame a vida, cuidem das vossas almas, lembrem-se que vocês ficarão velhos e se não cuidarem disso que eu estou lhes falando, vocês poderão chorar sem ter alento, quando chegarem os “maus dias” de que fala o escritor sagrado.


Conclusão:

Lembrem-se também, de que ainda na juventude Deus pode ceifar a sua vida, e nesse caso, se vocês estiverem esquecidos de Deus, quem lhes dará consôlo? Que será de sua alma além-túmulo?

Se no entanto, vocês se lembrarem de Deus, do seu Criador, nos dias de sua mocidade, vocês serão bem-aventurados, esperançosos na velhice e felizes para toda a eternidade.

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