
Rev. João d'Eça
Trata-se de um homem de origem humilde, “apenas mais um do Povo”. Sim, o “Povo” é com maiúscula.
Em sua infância foi um aluno mediano, que despertou pouca atenção dos professores. Provavelmente estes o consideravam mais um candidato a operário ou desempregado.
Apesar de sonhar alto, o jovem futuro Governante confirmou a expectativa inicial de seus mestres. Saído de sua terra natal em busca de melhores oportunidades, vagou entre um emprego e outro na maior cidade de seu País. Foi um cidadão abaixo da mediocridade, até que um acidente mudou sua vida.
Após o sinistro, prometeu-se que nunca mais veria o mundo e a política com os mesmos olhos. Em pouco tempo, engajou-se na tumultuada vida política de seu País.
Abraçando seus ideais revolucionários, chegou a ser preso por sua luta política, mas o tempo no cárcere contou em seu favor, criando uma aura de mártir e herói do Povo, sendo um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.
Seu modesto nível de instrução não o habilitava a uma posição de doutrinador do Partido (também com maiúscula), mas seu poderoso carisma e a enorme identificação que despertava no povo rapidamente alçaram-no à condição de líder inconteste do Partido, a ponto de sua pessoa e o Partido se tornarem indissoluvelmente unidos.
Para o papel de doutrinadores, o Partido arregimentou grande quantidade de intelectuais e estudiosos, que avidamente se entregaram à tarefa de alçar o Partido à condição de entidade infalível e onipotente. Infiltrados nas Universidades, órgãos da mídia e em todos os meios de formação de opinião, essa elite intelectual exerceu papel fundamental no crescimento do Partido.
Seu magnetismo pessoal arregimentou milhares de correligionários, que veneravam o Partido com fanatismo dogmático.Seu virulento discurso atacava os demais partidos, apontando-os como fracos, ineptos e extremamente corruptos. Não havia outro meio de salvar a nação que não o Partido. O País sofria o achaque de potências estrangeiras, que subvertiam a soberania nacional. Somente a mão firme e destra do Líder do Partido seria capaz de reverter tal quadro.
Convencido de que não atingiria os seus objetivos pela força, o Líder envidou todos os esforços para obter pelos votos o que sua fracassada Revolução não conseguira. Sua bancada cresceu visivelmente, logo se tornando a principal força política do País.
Em seu discurso, o Partido prometia prosperidade, grandeza da Pátria, segurança para os trabalhadores e a completa erradicação da pobreza e da corrupção.
Após quase conseguir por diversas vezes, finalmente o Líder ascende ao Poder. Seu Partido é uma verdadeira máquina, que rapidamente começa a aparelhar o Estado. Tal aparelhamento ocorreu de forma tão indelével que Estado e Partido passaram a se confundir como um só. Competência e capacidade perderam importância perante a lealdade partidária e ideológica. Gurus e fanáticos de várias espécies assumiram funções-chave no novo Governo.
No entanto, as promessas de campanha começaram a se mostrar vazias, enquanto membros do Partido eram sucessivamente investigados por envolvimento em verdadeiros escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e tudo que o Partido sempre jurara combater, e que demagogicamente criticou enquanto oposição.
Os escândalos se multiplicavam, e os membros do Partido se tornaram cada vez mais poderosos, irresponsáveis e incontroláveis. Movimentos organizados de cunho político-partidário afrontavam abertamente as autoridades e os Poderes constituídos. O Líder teve que intervir. Rompeu parcialmente com o Partido, como se nada tivesse a ver com o mesmo.
O final dessa história é bem conhecido: DESORDEM. CAOS. DESTRUIÇÃO. FRACASSO. MORTE.
Agora, uma pergunta: sobre quem fala o texto acima ????