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COMO NO VALE DE OSSOS SECOS (Ezequiel 37: 1-14)



Lembro-me de que alguns anos atrás, meu filho tinha por volta de 10 anos de idade e eu o levei, juntamente com o meu sobrinho da mesma idade para um Shopping Center, afim, de ver um filme. Antes de chegarmos às salas de cinemas, percebi uma mostra de desenhos de arte contemporânea e fui até lá com os dois. Eles acharam o máximo! Eu porém, fiquei incomodado com aquelas cenas escuras, imagens de morte, não havia nada colorido ou com um tema de ternura, carinho, amor, era somente trevas, desenhos em carvão, cenas da noite, lugares ermos e desérticos. Lógico que fiz questão de fazer a minha crítica ao responsável pela mostra e sai dali com os meninos, mas sem deixar de aplicar-lhes uma lição sobre o assunto.

Nossa cultura é obcecada por imagens de mortes. De espetáculos a programas de TV como CSI e Dexter a obras clássicas da literatura mundial, há muita cena de morte e de tragédias, como forma de entretenimento. As pessoas gostam disso. Se voltarmos nossa atenção para longe do mero entretenimento, para a cobertura da mídia, de doenças, da pobreza, dos desastres naturais, e da guerra, a obsessão só aumenta.

Como está escrito em Eclesiastes 9:3: “Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: a todos sucede o mesmo; também o coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem; depois, rumo aos mortos.”

Talvez a nossa fascinação pela morte, seja simplesmente o resultado da condição humana, como sugere o versículo, ou talvez, estejamos perseguindo uma antiga busca para vencer a morte narrada em histórias tão antigas quanto Gilgamesh e tão novas quanto O Ilusionista, O Grande Truque ou o mais recente, Atos que Desafiam a Morte.

O livro de Ezequiel no capítulo 37 narra alguns dos contos mais macabros da Bíblia. Quando as pessoas mencionam o profeta Ezequiel nos dias de hoje, quase que universalmente, as pessoas invocam a história do Vale dos Ossos Secos. (Ezequiel 37:1-14). Parece que a tradição cristã reduz o livro de Ezequiel a este texto.

Deus começa Ezequiel 37, apresentando um enigma para o profeta: "Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos?" (Ezequiel 37:3). O profeta humildemente responde: "Senhor Deus, tu o sabes."

-Por que o vale está cheio de ossos?

-O que causou as visões da morte?

-O que trouxe Ezequiel a ficar mudo e desesperado?

Uma resposta que pode ser dada, do porque as pessoas não respondem as perguntas acima, é o fato de não lerem o livro antes desta cena. Isso lhes dá uma visão míope do desespero do profeta e da situação do povo de Israel.

Ezequiel foi levado para o exílio em 597 a.C. Ele ouviu e conviveu com os relatos de que a religiosidade do seu e o sacerdócio estava corrompido. Esquecemo-nos da morte de sua esposa e da ordem de Deus para ele não lamentar sua partida, como um exemplo para a comunidade exilada não lamentar a perda do Templo (24:16-24).

Esquecemo-nos de muitas coisas: Do trauma histórico que acompanhou o exílio. Esquecemo-nos que os babilônios torturaram os habitantes de Jerusalém, guerrearam e os cercaram durante quase dois anos, levando a fome, o desespero e as doenças. (2 Reis 25:3). Esquecemo-nos de como eles destruíram a cidade de Jerusalém, arrasaram o templo, mataram os seus habitantes, e forçaram o restante a irem com escravos para a Babilônia.

O problema com a leitura de Ezequiel 37, é que a passagem chama o leitor a lembrar, confrontar, e testemunhar os eventos devastadores que levaram ao vale de ossos secos, em primeiro lugar. No entanto, a beleza está em que, mesmo neste cenário cheio de morte, a esperança é renovada. A cena lembra o sopro de Deus entrando no primeiro ser humano em Gênesis 2. O profeta, em seguida, ordena como manda o Senhor, e o mesmo fôlego de Deus entra nos corpos, que são reanimados e vivem mais uma vez (versículo 10).

O milagre desta visão não está na sua forma teatral, Spiuberguiana. O verdadeiro milagre é que vem logo depois da comunidade ter enfrentado perdas terríveis. Muitas vezes podemos transformá-la em uma promessa de vida nova em níveis individual e comunitário, sem levar a sério as situações e circunstâncias que levaram à morte inicial. Quando pensamos na morte e recordamos que Jesus nos deu vitória sobre ela, nos recusamos a avaliar os sistemas, padrões e conseqüências de nossa caminhada pelo vale da sua sombra.

Para pregarmos sobre este texto de forma responsável, devemos prestar atenção para o limite entre a vida e a morte. Devemos ao mesmo tempo reconhecer e testemunhar o desespero do mundo que nos rodeia. Nossa tarefa não é fácil. Mas se estamos dispostos a discernir a morte que rodeia as nossas igrejas, e se estamos preparados a obedecer o comando do espírito de Deus para renová-las, talvez a Igreja possa cumprir o seu papel de inspirar nova vida no vale escuro.

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