Pular para o conteúdo principal

SOBRE PRATOS E XÍCARAS

Esta crônica foi lida no culto do dia dos pais por uma filha lembrando o seu pai falecido esse ano do 2011. Resolví publicá-la aqui por julgar uma contribuição valiosa para a reflexão sobre o tema da perda de um ente querido.

Sobre pratos e xícaras


É interessante, ao acrodarmos e nos posicionarmos à mesa para tomar o café da manhã, a disposição das louças. Colocamos sempre a quantidade exata para o número de pessoas que irão deliciar-se com o dejejum.

Engraçado como temos alguma coisa a ver com simples objetos, seres inanimados, irracionais. Dispor xícaras e pratos à mesa, equivalentes à quantidade de membros da família, é como se nós estivéssemos numa escala proporcional às louças, como se a presença de um, dependesse da existência do outro.

Pensando bem, o tempo de vida útil de pratos e xícaras, assim como o dos copos e talheres depende sim da presença de um habitante do lar.

Lembro-me bem da manhã seguinte ao casamento do meu irmão mais velho. Minha mãe, como sempre, de pé, muito cedo, preparando as delícias matinais. Seis lugares a postos. Isso indicava que seis pessoas sentariam ali, seis xícaras seriam usadas, num café da manhã regado a muitas conversas, umas boas, outras que soavam como puxões de orelha, mas que seriam as nossas conversas. Coitada de minha mãe! Ela ainda não havia se acostumado com apenas cinco pessoas. Ainda não havia internalizado que o grupo familiar havia diminuído, que meu irmão deixou de ser família para virar parente que nos visitaria somente nos finais de semana, isso quando não fosse arrastado para a casa da sogra. Nesse dia, sorrimos.

Passado algum tempo, algo fez com que minha mãe não tivesse vontade de preparar nosso café da manhã. Não sei nem se ela conseguiu dormir na noite anterior.

Fui à cozinha, e, com os olhos marejados, preparei o café e dispus as louças. Eu já estava acostumada a ver só cinco xícaras na mesa. Mas nesse dia, com um aperto no coração, coloquei somente quatro.

Depois de muita insistência minha e de meus irmãos mais novos, minha mãe saiu do quarto para tomar café. Ela não conseguiu quebrar o jejum. Faltava uma xícara. Faltava alguém. Alguém que não iria nos visitar nos fins de semana para colocarmos uma louça a mais na mesa. Faltava o meu pai.

Desde aquele dia, sentamos-nos à mesa, mas há um vazio. As conversas? Talvez elas voltem. A xícara? Talvez também seja colocada, talvez quebre, mas com a certeza de que poderá ser substituída. Mas, meu pai, insubtituível, esse deixará um vazio, que nunca poderá ser preenchido.

Em memória a Francisco Luís da Silva.

Priscilla Robertha de Andrade

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DICIONÁRIO "MARANHENSE" !!!

Por



Rev. João d'EçaJoão do Vale, nosso poeta popular, em uma de suas canções diz: "minha terra tem belezas que em versos não sei dizer; mesmo porque não tem graça, só se vendo pode crer..."As coisas do Maranhão são espetaculares, sua natureza é exuberante, suas cidades são magnificas e sua Capital é encantadora. Eu amo minha cidade de paixão.Há muita coisa que não gosto em São Luís, não tem nada a ver com a natureza ou com a sua história, mas tem a ver com algumas pessoas que tiram a paz de outras pessoas, sem respeitar os seus direitos, mas isso é outra história...Quero lhes apresentar algumas palavras do vocabulário popular maranhense (está bastante incompleto, mas já é alguma coisa, desafio os leitores a me escreverem e me ensinarem novas palavras desse nosso rico "dicionário popular maranhense").Recebi de um amigo, numa lista de E-mails, essa lista que lhes apresento abaixo, achei muito divertido e interessante, fiz algumas adaptações e publico aqui e agora…

"LANÇA O TEU SOBRE AS ÁGUAS" - Eclesiastes 11: 1

PorRev. João d'EçaO texto diz: "Lança o teu pãp sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás"O que será que as Escrituras Sagradas estão nos ensinando aqui?A palavra "pão" sempre foi figura daquilo que ganhamos no dia-a-dia. As pessoas nos indagam: - "Você está indo pra onde?"- Vou ganhar o pão de cada dia (trabalho).Os estudiosos do AT, nos dizem que aqui há duas figuras:1ª Figura: AS CHEIAS DO RIO NILO - Eles jogavam as sementes quando a enchente estava baixando, no final da baixa, as sementes do trigo e da cevada, floresciam.2ª Figura: O COMERCIANTE - O comerciante pegava o seu barco, carregava com os bens que havia produzido e sai para comercializar em outras terras. "Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás".No versículos 2, o escritor sagrado nos dá uma lição preciosa, ele nos diz que devemos diversificar a nossa aplicação, porque não sabemos o que ácontecerá amanhã.Como servos dos Deus vivo, o S…

QUALIDADES DE UM BOM DESPENSEIRO.

Por Rev. João d'Eça Sermão pregado na Igreja Presbiteriana Monte Moriah, São Luís, MA, dia 14/01/2007 As qualidades de um bom despenseiro. "Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus". (I Pedro 4: 10). Introdução: O termo despenseiro tem o significado de alguém que cuida da despensa, ou seja, é o local da casa onde se guarda os alimentos e os outros mantimentos, nesse caso, despenseiro é o que toma de conta de toda a despensa, é uma espécie de Mordomo. No caso do texto básico da mensagem, despenseiro é aquele que administra os dons da multiforme graça de Deus, de maneira que pessa abençoar a si mesmo e ao seu próximo. * Muitas pessoas pensam que todas as coisas são sua propriedade. * A Bíblia nos ensina diferente, pois diz: "Do Senhor é a Terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam." ( Salmos 24:1). O profeta Ageu diz também: "O ouro e a prata são seus." * O…