Pular para o conteúdo principal

"FAZ UM MILAGRE EM MIM" E A CRISE DA IGREJA BRASILEIRA

fonte: http://paulocesarvalle.blogspot.com/2009/04/007-faz-um-milagre-em-mim-e-crise-da.html

Não são poucos os brasileiros que estão encantados com o sucesso da música gospel “faz um milagre em mim”, de Regis Danese. Lançada em outubro de 2008 em seu álbum “Compromisso”, já havia ultrapassado a casa de mais de um milhão de cópias vendidas em fevereiro de 2009, conforme dados disponíveis no site da gravadora Line Records e da Comunidade Nova Aliança.

Seu sucesso é tão grande que a canção ganhou pelo menos duas novas versões: uma em pagode e outra em funk. A primeira, através do grupo “Pique Novo” no álbum “Maravilhoso Louvor”. A segunda, através do DJ Mc Festa de Reis em seu álbum “Festa de Reis”. Rádios de pressupostos não evangélicos têm tocado uma ou outra versão para a música, como, por exemplo, a Rádio Cidade do Aço FM (103,3 FM), parte do Sistema Sul Fluminense de Comunicação, onde a canção ocupou o primeiro lugar do hit parade durante algumas semanas. Até os clubes de Reggae de São Luís já fizerem uma versão em ritmo de Reggae da música, que é tocada em todos os finais de semana (grifo João d'Eça).

O deslumbre entre os evangélicos é geral, principalmente pelo sucesso entre os não evangélicos. “Quem sabe não seria um excelente meio para a evangelização”, dizem alguns. Entretanto, o que a grande maioria não percebe é que esse deslumbre demonstra a crise por que passa a igreja evangélica brasileira. Este texto tem a intenção de demonstrá-la sob a ótica da teologia reformada.

Um dos pressupostos da teologia reformada é a crença no princípio de Sola Scriptura (suficiência das Escrituras). Isto pode ser testificado por obras que afirmam categoricamente que “sendo a palavra escrita o meio escolhido por Deus para revelar a sua vontade ao homem, ela não pode ser dispensada, igualada, acrescentada nem suplantada” (ANGLADA: 1998, p. 31). Assim, por Scriptura, os reformadores queriam dizer os 66 livros canônicos, inspirados e inerrantes da Bíblia Sagrada. Por Sola, sua suficiência em matéria de fé (tudo o que devemos crer para sermos salvos) e prática (como devemos viver para agradar a Deus). O princípio, portanto, de Sola Scriptura, uma vez crido e praticado, seria capaz de libertar “o povo de Deus de doutrinas e práticas impostas às suas consciências por autoridade meramente humana” (SPEAR: 1996, p. 9), uma vez que ela é a palavra de Deus revelada aos homens e autoridade final em matéria de fé prática.

Sabemos, contudo, que embora esta teoria, a saber, da Bíblia como única regra de fé e prática, permaneça, grosso modo, no evangelicalismo brasileiro, há muito não se evidencia. Basta-nos identificar o que muitos alegam ser verdade em certos arraiais e logo perceberemos a ausência de princípios bíblicos que norteiem e emoldurem essa mesma verdade, bem como a sua prática.A letra da canção “Faz um milagre em mim” é um bom exemplo dessa crise a que me refiro. De certo modo, ela está fundamentada numa falácia de leitura, como pretendo demonstrar, revelando concomitantemente, o sistema de pensamento predominante na igreja evangélica brasileira. A letra da canção diz:

Como Zaqueu, eu quero subir

O mais alto que eu puder,

Só pra te ver, olhar para ti E chamar sua atenção para mim.

Eu preciso de ti, Senhor

Eu preciso de ti, ó Pai

Sou pequeno demais, me dá tua paz

Largo tudo pra te seguir.

Entra na minha casa, entra na minha vida,

Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas,

Me ensina a ter santidade, quero amar somente a ti,

Porque o Senhor é o meu bem maior, faz um milagre em mim.

Desejo destacar dois problemas perceptíveis aos meus olhos na letra dessa canção e dignos, devido a sua gravidade, de consideração: (1) a inadequada leitura do texto-base para a canção, a saber, Lucas 19.1-10; e (2) a identificação do sistema de pensamento predominante do evangelicalismo moderno. Comecemos pela inadequada leitura do texto-base para a canção: Lucas 19.1-10, de acordo com a Nova Versão Internacional.

"Jesus entrou em Jericó, e atravessava a cidade. Havia ali um homem rico chamado Zaqueu, chefe dos publicanos. Ele queria ver quem era Jesus, mas, sendo de pequena estatura, não o conseguia, por causa da multidão. Assim, correu adiante e subiu numa figueira brava para vê-lo, pois Jesus ia passar por ali. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e lhe disse: 'Zaqueu, desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje'. Então ele desceu rapidamente e o recebeu com alegria. Todo o povo viu isso e começou a se queixar: 'Ele se hospedou na casa de um pecador'. Mas Zaqueu levantou-se e disse ao Senhor: 'Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais'. Jesus lhe disse: 'Hoje houve salvação nesta casa! Porque este homem também é filho de Abraão. Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido'” (Lucas 19.1-10 - NVI).

De acordo com a letra da canção, Zaqueu nos é apresentado, através de uma linguagem metafórica, como uma espécie de modelo a ser seguido. “Ele queria ver quem era Jesus, mas, sendo de pequena estatura, não o conseguia, por causa da multidão. Assim, correu adiante e subiu numa figueira brava para vê-lo, pois Jesus ia passar por ali”.É difícil a pressuposição do autor da letra de que, realmente, Zaqueu quisesse “chamar sua atenção”. Muito possivelmente, isso não teria passado por sua cabeça, homem acostumado que era em ser desprezado pelos seus compatriotas. Zaqueu era um cobrador de impostos e, aos olhos de seus irmãos, judeus, ele era considerado traidor, pois estava a serviço de Roma. Lucas deixa isso bastante evidente, ao afirmar que houve uma queixa do povo quando Jesus disse que ficaria em sua casa naquela dia.

Entretanto, o ponto que realmente chama a atenção é o fato de que se tomarmos Zaqueu como parâmetro a ser seguido – e me parece que é exatamente isso que o autor da letra faz –, na canção, é Zaqueu quem convida a Jesus para ir até a sua casa. A letra diz: “Entra na minha casa”. O modo verbal é o imperativo. Um convite! A implicação é que, de acordo com a música, parte de Zaqueu o convite para que Jesus entrasse em sua casa. Mas quando nos voltamos ao texto-base, logo percebemos que é o Senhor Jesus quem o convida a descer da figueira brava para se hospedar em sua casa. Não é Zaqueu quem convida a Jesus, mas Jesus, a Zaqueu. Portanto, a frase “entra na minha casa” não precisa aquilo que o autor inspirado recebeu e relatou. Isso nos leva a uma reflexão daquilo que pode estar por detrás desse pensamento: a predominância de um sistema que esvazia o evangelho, uma vez que concede ao homem o lugar que somente a Deus pertence.

Tem sido assim, ultimamente. Cada vez mais, nos arraiais da igreja, o homem, e não Deus, tem estado no centro da obra redentora (não esqueçamos que este é o contexto do convite de Jesus a Zaqueu). Predominantemente, o evangelho anunciado desvia o foco de Jesus e coloca sobre o homem. É o homem quem decide. É o homem quem escolhe. Estes pressupostos, estão presentes, por exemplo, em telenovelas de redes de televisão. Cada dia mais, elas se encarregam de fazer certa apologia ao livre arbítrio. E a igreja, sem qualquer critério bíblico – voltamos à questão de Sola Scriptura – mastiga e engole sem quaisquer dificuldades.

Paulo Cezar, autor de inúmeras canções e vocalista do Grupo Logos, em seu álbum “Conteúdo”, incluiu uma canção de sua autoria que descreve muito bem toda essa situação. Em parte da letra dessa canção, ele relembra, e muito bem, a realidade do evangelho, criticando o que se passa em nossos dias:

É por isso que não posso me esquecer: Sendo seu servo, não lhe digo o que fazer; Determinando ou marcando hora para acontecer, O que sua vontade mostrará.

Absorvida pelo sistema mundano de pensamento, o que a igreja, normalmente, faz? Ela determina, ordena e Deus, que é Senhor, é tratado como servo. Entretanto, um evangelho onde Deus não é Senhor absoluto (isto me soa redundante, mas...) não é o evangelho (cf. Marcos 10.17-31).

Se não estou equivocado em minhas percepções – gostaria muito de ser advertido caso esteja –, a ausência de dificuldades para que as multidões entoem tal canção denuncia a crise que demonstro existir. Dessa maneira, concluo, e talvez de forma bombástica, afirmando que a canção “faz um milagre em mim” não deveria ser cantada entre os evangélicos, uma vez que as entrelinhas fazem apologia a um sistema de pensamento que se opõe ao sistema de pensamento das Escrituras, portanto, do próprio Deus, e frágil teologicamente.

Sua fragilidade teológica é tão notória que não há qualquer hesitação ou dúvida de consciência, quando presenciamos a Igreja Católica Romana utilizando a canção em suas missas, conforme a exibida pela Rede Vida, no dia 14 de março de 2009, à tarde, sob a voz do padre Marcelo Rossi, o que demonstra, de certo modo, a proximidade doutrinária entre evangélicos e católicos atualmente, o que seria completo absurdo há 15 ou 20 anos atrás. O que me consola, contudo, é que eles jamais poderão cantar “escolhido fui, escolhido sou, desde o princípio por Deus Criador”; consola-me o fato de que jamais poderão cantar "... a santa e eleita Igreja fundamentada está somente em Jesus Cristo, outro não seguirá". Doutrinas como as da graça não são por eles toleradas. Se não são toleradas, não são cantadas.

Fica aqui a advertência, principalmente aos pastores – que devem ser capazes de, no mínimo, ler e interpretar, para o bem do povo de Deus, as Escrituras Sagradas – para que sejamos mais criteriosos acerca do que ensinamos, pregamos, oramos e cantamos. Como disse o apóstolo Pedro: “O fim de todas as coisas está próximo. Portanto, sejam criteriosos e estejam alertas; dediquem-se à oração” (1 Pe 4.7 – NVI). Mas é verdade também: “‘...eu não os enviei nem os autorizei; e eles não trazem benefício algum a este povo’, declara o Senhor”, como disse o profeta Jeremias (23.32 – NVI), acerca daqueles que falavam em nome Deus, sem que tivessem sido enviados.

Seja Deus gracioso para conosco!

A Deus toda a glória!

BIBLIOGRAFIA

ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura: a Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998.SPEAR, Wayne. The Westminster Confession of Faith and Holy Scripture. Glasgow: Free Presbyterian Publications, 1994.

fonte: http://paulocesarvalle.blogspot.com/2009/04/007-faz-um-milagre-em-mim-e-crise-da.html

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

QUALIDADES DE UM BOM DESPENSEIRO.

Por Rev. João d'Eça Sermão pregado na Igreja Presbiteriana Monte Moriah, São Luís, MA, dia 14/01/2007 As qualidades de um bom despenseiro. "Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus". (I Pedro 4: 10). Introdução: O termo despenseiro tem o significado de alguém que cuida da despensa, ou seja, é o local da casa onde se guarda os alimentos e os outros mantimentos, nesse caso, despenseiro é o que toma de conta de toda a despensa, é uma espécie de Mordomo. No caso do texto básico da mensagem, despenseiro é aquele que administra os dons da multiforme graça de Deus, de maneira que pessa abençoar a si mesmo e ao seu próximo. * Muitas pessoas pensam que todas as coisas são sua propriedade. * A Bíblia nos ensina diferente, pois diz: "Do Senhor é a Terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam." ( Salmos 24:1). O profeta Ageu diz também: "O ouro e a prata são seus." * O…

DICIONÁRIO "MARANHENSE" !!!

Por



Rev. João d'EçaJoão do Vale, nosso poeta popular, em uma de suas canções diz: "minha terra tem belezas que em versos não sei dizer; mesmo porque não tem graça, só se vendo pode crer..."As coisas do Maranhão são espetaculares, sua natureza é exuberante, suas cidades são magnificas e sua Capital é encantadora. Eu amo minha cidade de paixão.Há muita coisa que não gosto em São Luís, não tem nada a ver com a natureza ou com a sua história, mas tem a ver com algumas pessoas que tiram a paz de outras pessoas, sem respeitar os seus direitos, mas isso é outra história...Quero lhes apresentar algumas palavras do vocabulário popular maranhense (está bastante incompleto, mas já é alguma coisa, desafio os leitores a me escreverem e me ensinarem novas palavras desse nosso rico "dicionário popular maranhense").Recebi de um amigo, numa lista de E-mails, essa lista que lhes apresento abaixo, achei muito divertido e interessante, fiz algumas adaptações e publico aqui e agora…

"LANÇA O TEU SOBRE AS ÁGUAS" - Eclesiastes 11: 1

PorRev. João d'EçaO texto diz: "Lança o teu pãp sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás"O que será que as Escrituras Sagradas estão nos ensinando aqui?A palavra "pão" sempre foi figura daquilo que ganhamos no dia-a-dia. As pessoas nos indagam: - "Você está indo pra onde?"- Vou ganhar o pão de cada dia (trabalho).Os estudiosos do AT, nos dizem que aqui há duas figuras:1ª Figura: AS CHEIAS DO RIO NILO - Eles jogavam as sementes quando a enchente estava baixando, no final da baixa, as sementes do trigo e da cevada, floresciam.2ª Figura: O COMERCIANTE - O comerciante pegava o seu barco, carregava com os bens que havia produzido e sai para comercializar em outras terras. "Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás".No versículos 2, o escritor sagrado nos dá uma lição preciosa, ele nos diz que devemos diversificar a nossa aplicação, porque não sabemos o que ácontecerá amanhã.Como servos dos Deus vivo, o S…