Pular para o conteúdo principal

REFORMA PROTESTANTE - JOHN KNOX E O CALVINISMO ESCOCÊS

Ainda são sentidos até hoje os efeitos da Reforma protestante como uma época de tomada de decisões que geraram mudança no mundo cristão, não só na religião em si, mas também nos costumes, política, literatura e na vida cotidiana. A mudança ocorrida com a publicação das 95 teses de Lutero teve lugar sucessivamente, uma mudança confessional, com o Calvinismo, a partir de Genebra, influenciado o desenvolvimento de outros países, incluindo a Escócia. Devido à sua proximidade geográfica e política para com a Inglaterra, a Reforma nesta parte norte da Grã-Bretanha deve ser sempre colocada no contexto de sua geografia.

A abordagem de John Knox
Para sermos capazes de apreciar a abordagem de John Knox, devemos antes de tudo contornar o seu escopo. A Escócia no Séc. XVI, ainda estava dominada por um sistema de anarquia feudal caracterizado por estruturas de clãs. A população era de cerca de um milhão de pessoas, dos quais aproximadamente 90% viviam em áreas rurais. Todos os reis nos 100 anos antes do nascimento de Knox, tiveram uma morte violenta, nenhum deles tinha mais de 42 anos. Por causa de uma sequência de reis menores de idade, as decisões eram tomadas por uma espécie de deputados que tutoriavam os reis menores.

A Reforma Luterana
Nos anos após a publicação das 95 Teses de Lutero em Wittemberg, houve uma efervescência de propaganda reformista. O Novo testamento foi traduzido para o inglês na fronteira escocesa. Na Inglaterra, a Bíblia foi queimada imediatamente, logo depois de publicada, no entanto, na Escócia, os problemas foram muito maiores para conter a onda dos livros se espalhando rapidamente. Na primavera de 1543, a posição dos protestantes na Escócia mudou quase que do dia pra noite. Seguiu-se a morte do Rei Tiago V.

Maria, a sanguinária
Em 1554, o governante escocês rompeu com Mary, a Católica de Guise, mãe de Mary Stuart. O conde Arran estava no trono escocês. Mary se casou com o delfim francês em 1558, que reforçou a aliança Escócia-França. Após a morte de seu marido, Mary foi elevada à rainha da Escócia, em agosto de 1561. A maioria da nobreza era calvinista. Alguns dos súditos de Mary estavam a serviço da rainha Elizabeth I, que não poupou esforços para aproveitar e incorporar a Escócia a seu império. Eles queriam coroar Maria Stuart como rainha da Escócia, esperando que ela resolvesse os problemas religiosos de seu país.

John Knox nasceu no início do reinado de Tiago V, provavelmente em 1505. Alguns historiadores mais recentes datam o seu nascimento em 1513 ou 1514. O local do seu nascimento foi a região mais fértil de Lothian, que tinha o status de uma cidade real livre. A sua densidade populacional era relativamente baixa, com de 1500 habitantes (comparado com 50 mil em Londres, 200 mil em Paris e 15 mil Edinburgo). A base da economia era principalmente de comerciantes e artesãos.

A vida de John Knox era difícil e simples. O solo da região não era muito fértil, o que contribuiu para o uso de métodos primitivos e para a pobreza no país. A situação levou muitos escoceses a migrarem para o exterior, muitas vezes como imigrantes indesejados. Pouco se sabe sobre a família de John Knox. A família Knox não estava muito bem colocados na estrutura social, mas seu pai William era um homem livre na sua cidade natal, de acordo com Ridley.

John Knox quando criança, se apresentou com uma inteligência acima da média, que levou-o a ter os estudos garantidos para ingressar na igreja – naquela época, para um homem da Igreja, era necessário um nível mínimo de educação. Muitos padres escoceses do século XVI não eram alfabetizados. De 1531 ou 1532 Knox, estudou com John Major, um dos principais intelectuais da Europa do seu tempo, de três a quatro anos de teologia na Universidade de St. Andrews.

Knox se distinguiu por suas realizações acadêmicas e foi recompensado ainda muito jovem, com um título acadêmico “Bachelor of Divinity”. Mesmo antes de atingir a idade de costume, ele foi ordenado sacerdote em 1536. Apesar desta brilhante carreira acadêmica, Knox foi confrontado com um problema. Já haviam muitos sacerdotes, na Escócia, para Knox era impossível ganhar a vida desta forma. Quatro anos depois de sua ordenação não tinha conseguido localização. Em 1540 ele entra como um notário público nas imediações do Haddington. No ano 1545-1546, ele foi temporariamente designado companheiro de John Wishart e Andrew Lang. Wishart, reformador escocês e mártir, havia em seu exílio suíço, entrado em contato com Calvino e se tornou um de seus apoiadores fiéis.

O contato com Wishart é provavelmente um dos motivos principais para a afinidade de Knox com os ensinamentos de Calvino. Sob as ordens do cardeal Beaton, líder do partido anti-protestante, Wishart foi condenado como herege e queimado na fogueira. Em seguida, um grupo de protestantes ocuparam o castelo de St. Andrews e causaram a morte do cardeal. Provavelmente John Knox não se envolveu ativamente nessa questão do assassinato do cardeal, mas deu o seu apoio, de acordo com Lang. O castelo foi ocupado e em julho de 1547 com o cerco francês, Knox e outros foram feitos prisioneiros e passaram os próximos anos, até o início do ano 1549, como escravos a serviço da França. Depois de libertado sob o reinado de Eduardo VI, foi levado seguro para a Inglaterra protestante. Ele foi oficialmente um pregador licenciado em Berwick, onde conheceu sua futura esposa. A partir de 1551-1554 ele foi contratado como capelão do rei em Newcastle.

Vivendo escondido na Inglaterra, Knox evitou criticar a rainha Mary Tudor. Só mais tarde, na segurança da França, ele falou publicamente contra a monarca Inglês. Ele estabeleceu-se em Dieppe por algum tempo, e de lá foi para Genebra, no final de março de 1554, onde ele via pela primeira vez a oportunidade de um encontro pessoal com João Calvino.

A Reforma na Escócia é baseada no declínio da Igreja Romana. Gordon Donaldson diz que o papado já estava próximo de ser expulso da "Máquina eclesiástica escocesa". Na introdução à História de Knox da Reforma na Escócia, o editor William Croft Dickinson denominou-a de “uma revolução, uma revolta do povo contra a Igreja”. Ele falou não só dos aspectos religiosos, mas também explicitamente se voltaram contra as injustiças já existentes na vida política e social do país.

A adoção da fé protestante também serviu a muitos interesses mundanos, e supõe-se que nem todos os que apoiaram a Reforma, pertenciam as denominações protestantes ou queriam se converter. James Kirk fala de uma chegada relativamente tardia da Reforma na Escócia, e isso proporcionou uma vantagem na medida em que tal assimilação do material teológico existente na Europa continental tornou-se possível.

Mesmo diante do decreto de Edimburgo de 1525, que proibia a importação de escritos Luteranos, a literatura reformada invadiu a Escócia, proporcionando a transformação da sociedade. Do exílio de Genebra Knox foi chamado para uma guerra religiosa contra Marie de Guise e sua "igreja de Satanás". Os nobres predominantemente protestantes se uniram para formar um movimento de resistência, apoiados secretamente por Elizabeth I da Inglaterra.

Para os reformadores e para John Knox, o objetivo não era somente obter tolerância para sua própria fé, mas sim erradicar a Igreja Católica completamente. Uma vez que esta era explicitamente a religião dos governantes, na Escócia, com isso, por causa das suas ações, eles receberam o status de rebeldes.

Em 6 de Julho foi ratificado o Tratado de Edimburgo que gerou a retirada das tropas francesas da Escócia. Em 1559 ocorreu a vitória final do protestantismo. No mesmo ano a rainha Elizabeth I, fundou a Igreja Anglicana.

Em 1560, a Igreja Reformada da Escócia, já era totalmente calvinista. O calvinismo foi declarado como religião de Estado. A força do impacto, na Escócia de Knox é especialmente evidente no referido estabelecimento da Igreja. Os paralelos são evidentes com o modelo de Genebra, que pode ser devido à proximidade ideológica de Knox e seu mentor, João Calvino. Knox é o mediador entre os europeus e a Reforma escocesa.

GENEBRA E A ESCÓCIA
Em comparação com a cidade de Genebra e a reforma calvinista lá, a Escócia era um grande país selvagem, caracterizado por estruturas anárquicas e feudais. Mas existem diferenças mais profundas entre a Escócia e Genebra. Há diferenças, mesmo no conteúdo teológico, que um olhar mais atento encontrará. Comuns a ambos os reformadores, que fizeram da Bíblia a base de sua teologia. Knox lia o Velho Testamento muitas vezes, literalmente, e viu-o como um guia preciso para sua ação política. Enquanto Calvino procurava a longo prazo, uma harmonia entre a Igreja e o Estado. Na opinião de Knox, o Estado deve atribuir determinadas tarefas para a prosperidade da Igreja Protestante na Escócia.

O ponto mais marcante de diferença é encontrado nos pontos de vista e comentários sobre a resistência armada contra as autoridades. Calvino é veementemente contra ela. Knox, depois da experiência com Maria, a sanguinária, mudou essa opinião. Para ele as pessoas têm o direito de resistência armada. Esta alteração no calvinismo escocês é provavelmente justificada pelas circunstâncias externas com as quais Knox teve que lidar em oposição a Calvino.

A conclusão comparativa pode-se dizer que o calvinismo escocês seguiu a doutrina de Calvino como um todo. Por que o calvinismo na Escócia teve um sucesso tão grande? Foi uma combinação de diferentes fatores. O calvinismo encontrou na Escócia um trabalho de base bem feito. A Reforma, foi uma revolução de baixo para cima. Knox foi um calvinista, antes de se tornar um calvinista. A razão pela qual ele se adaptou facilmente ao calvinismo foi na sua própria opinião, a proximidade ideológica com a doutrina de Calvino. O fato é que sem a pessoa de John Knox, com todas as suas peculiaridades pessoais, a Reforma na Escócia, provavelmente teria tomado um curso totalmente diferente.

Bibliografia:
- GONZALES. Just L. A era dos Mártires - vol. 1
- GONZALES. Justo L. Uma história do pensamento Cristão.
- MAGRATH. Alister.  Teologia Histórica
- SATNLEY J. Grenz e OLSON. Roger - Teologia do século 20

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DICIONÁRIO "MARANHENSE" !!!

Por



Rev. João d'EçaJoão do Vale, nosso poeta popular, em uma de suas canções diz: "minha terra tem belezas que em versos não sei dizer; mesmo porque não tem graça, só se vendo pode crer..."As coisas do Maranhão são espetaculares, sua natureza é exuberante, suas cidades são magnificas e sua Capital é encantadora. Eu amo minha cidade de paixão.Há muita coisa que não gosto em São Luís, não tem nada a ver com a natureza ou com a sua história, mas tem a ver com algumas pessoas que tiram a paz de outras pessoas, sem respeitar os seus direitos, mas isso é outra história...Quero lhes apresentar algumas palavras do vocabulário popular maranhense (está bastante incompleto, mas já é alguma coisa, desafio os leitores a me escreverem e me ensinarem novas palavras desse nosso rico "dicionário popular maranhense").Recebi de um amigo, numa lista de E-mails, essa lista que lhes apresento abaixo, achei muito divertido e interessante, fiz algumas adaptações e publico aqui e agora…

"LANÇA O TEU SOBRE AS ÁGUAS" - Eclesiastes 11: 1

PorRev. João d'EçaO texto diz: "Lança o teu pãp sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás"O que será que as Escrituras Sagradas estão nos ensinando aqui?A palavra "pão" sempre foi figura daquilo que ganhamos no dia-a-dia. As pessoas nos indagam: - "Você está indo pra onde?"- Vou ganhar o pão de cada dia (trabalho).Os estudiosos do AT, nos dizem que aqui há duas figuras:1ª Figura: AS CHEIAS DO RIO NILO - Eles jogavam as sementes quando a enchente estava baixando, no final da baixa, as sementes do trigo e da cevada, floresciam.2ª Figura: O COMERCIANTE - O comerciante pegava o seu barco, carregava com os bens que havia produzido e sai para comercializar em outras terras. "Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás".No versículos 2, o escritor sagrado nos dá uma lição preciosa, ele nos diz que devemos diversificar a nossa aplicação, porque não sabemos o que ácontecerá amanhã.Como servos dos Deus vivo, o S…

QUALIDADES DE UM BOM DESPENSEIRO.

Por Rev. João d'Eça Sermão pregado na Igreja Presbiteriana Monte Moriah, São Luís, MA, dia 14/01/2007 As qualidades de um bom despenseiro. "Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus". (I Pedro 4: 10). Introdução: O termo despenseiro tem o significado de alguém que cuida da despensa, ou seja, é o local da casa onde se guarda os alimentos e os outros mantimentos, nesse caso, despenseiro é o que toma de conta de toda a despensa, é uma espécie de Mordomo. No caso do texto básico da mensagem, despenseiro é aquele que administra os dons da multiforme graça de Deus, de maneira que pessa abençoar a si mesmo e ao seu próximo. * Muitas pessoas pensam que todas as coisas são sua propriedade. * A Bíblia nos ensina diferente, pois diz: "Do Senhor é a Terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam." ( Salmos 24:1). O profeta Ageu diz também: "O ouro e a prata são seus." * O…